Já não Interessa tanto falar de perigos, esgrimir alternativas, apontar incompetências ou culpar teimosias. Também já não vale a pena falar das consequências nefastas da manobra e da falta de teoria económica que ela contém. Sobre isso o consenso só não é unânime, porque há ainda quem beneficie com a desgraça.
Ora, conhecer os motivos do Governo tem-se tornado mais fácil, por exclusão de respostas ultrapassadas.
Há um ano, a austeridade era imposta pelos credores e o grau de austeridade era inegociável. O FMI já disse que não e Barroso já daí lavou as mãos. Caiu uma primeira máscara. Há um ano também, o Orçamento era a base de uma “profunda reforma estrutural”. Essa justificação desaparece agora: o aumento dos impostos é
o contrário de tudo isso. É outra máscara que cai. Se não é pela imposição externa, se não é pela regeneração económica, porque é que temos este OE que ninguém — ou quase ninguém — quer? É muito provável que a resposta faça cair uma terceira máscara.
O Orçamento tem um responsável técnico, o ministro das Finanças, e um responsável político, o primeiro-ministro. Concentremo- nos no primeiro. Quem é ele? De onde vem? A resposta tem de passar pela análise das ligações do ministro das Finanças ao sector financeiro. Olhemos para o primeiro-ministro e atendamos a quem beneficia directamente com a alternativa que ele escolheu. Vamos dar ao mesmo lado, pois a alternativa passa, todas as contas feitas, por juros mais baixos para quem emprestou ou pensa emprestar dinheiro ao Estado. Está assim identificada uma terceira máscara? Fica a pergunta. A ser verdade, ela cairá seguramente um dia, pois vivemos em democracia e pode então estar aí uma boa razão para todos, mesmo todos, quererem seguir um caminho mais sensato.
Por Pedro Lains in Público de 16 de Outubro de 2012


