Novos procedimentos na empresa, para evitar novo Face Oculta. Companhia negociou directamente com a Siderurgia Nacional
Depois da casa roubada, trancas à porta. Após o envolvimento de estruturas intermédias da Refer em negócios controversos com intermediários de sucata, que culminariam no processo Face Oculta, a gestora de infra-estruturas ferroviarias esteve dois anos sem proceder a qualquer venda de resíduos e a rever de alto a baixo os seus procedimentos nesta matéria.
O resultado, anunciado agora em comunicado da empresa, é um processo mais transparente, que elimina intermediários, e que passa pela venda directa à Siderurgia Nacional de 45 mil toneladas de resíduos de carril e de material ferroso miúdo, que lhe proporcionará uma receita de 13 milhões de euros.
Nos últimos dois anos, foi sendo acumulada no complexo logístico do Entroncamento grande parte dos resíduos resultantes das renovações de vias-férreas levadas a cabo pela Refer, em vez de serem escoadas, através de sucateiros (normalmente era a empresa O2 do empresário Manuel Godinho que detinha esse negócio) desde os locais onde eram efectuados os trabalhos.
Agora esses milhares de toneladas de carris vão ser escoados nos próximos 18 meses através de comboios de mercadorias do Entroncamento para o Seixal (cuja siderurgia já possui ramal ferroviário desde 2008). A Refer estima realizar 75 comboios, com 14 vagões cada um e uma carga aproximada de 600 toneladas.
Para a operacionalização deste processo, a empresa lançou um concurso para o aluguer de vagões tendo convidado todas as empresas da Península Ibérica desse mercado (CP Carga, Comsa, Somafel, Transfesa e VTG Rail España) e para a realização do transporte convidou a CP Carga, a Takargo e a Comsa. A CP Carga ganhou ambos os concursos, tendo o contrato sido adjudicado por 554 mil euros.
Susana Abrantes, da Comunicação da Refer, disse ao PÚBLICO que neste novo paradigma da gestão dos resíduos, a empresa ganha 13 milhões de euros e há um maior empenhamento na protecção do ambiente porque o transporte dos resíduos é feito por comboio, em vez de camião. E exemplificou que um comboio com dez vagões transporta 500 toneladas de carga, enquanto um camião transporta aproximadamente 20 toneladas.
Segundo o simulador ambiental da CP Carga, o transporte de 45 mil toneladas por caminho-de-ferro desde o Entroncamento para a Península de Setúbal emite para a atmosfera 56,3 toneladas de CO2, ao passo que o mesmo transporte feito por via rodoviária emite 268,3 toneladas. Os ganhos ambientais são, assim, de 212 toneladas de dióxido de carbono.
Neste novo paradigma de venda de resíduos, ainda iniciado pela anterior administração da Refer, a empresa negoceia directamente com o comprador final das sucatas (a siderurgia), evitando entropias com intermediários.
O Carril Dourado (um caso de corrupção que envolveu uma empresa de Manuel Godinho em obras na Linha do Douro e o roubo de carris na Linha do Tua) e o Face Oculta tiveram como consequência na Refer o despedimento com justa causa de três trabalhadores, a suspensão de dois quadros e duas rescisões voluntárias.
Em entrevista ao PÚBLICO (29/10/2012), o novo presidente da empresa, Rui Loureiro, disse que havia uma vontade de irem "até ao fim" no apuramento do que se passou nesta empresa pública, embora lamentasse as limitações processuais, porque uma prova em tribunal não constitui uma prova no âmbito de um processo disciplinar da empresa.
Por Carlos Cipriano in Público de 7 de Novembro de 2012


