NaEspanha começou entretanto a ser construída umarede ferroviária em bitola europeia, que tem já várias linhas a funcionar mas que é apenas para o transporte de passageiros. Agora estão já a incluir o transporte de mercadorias nas novas linhas e puseram em marcha um ambicioso plano de adaptação de linhas de bitola ibérica para bibitola ( com três carris), para permitir igualmente a passagem de comboios em bitola europeia. Assim, se Portugal não se mexer, ainda fica uma“ilha ferroviária”.
É um facto que também em Portugal se fala em construir uma rede em bitola europeia, a qual foi mesmo uma das bandeiras dos Governos de José Sócrates, o dito TGV, mas a falta de estudos credíveis levou a que nada chegasse a ser feito. O actual Governo, através do ministro Santos Pereira, apresentou a construção dessa rede, vocacionada para o transporte de mercadorias, como uma grande ambição. Contudo, um plano, claro e consistente, ainda não se viu.
Há vários anos que venho a envolver- me nesta temática, tendo desenvolvido vários estudos com vista à adopção de soluções racionais e económicas. Recentemente, num colóquio sobre este tema, organizado na Sociedade de Geografia de Lisboa, fiz a apresentação de um plano detalhado para uma rede ferroviária de bitola europeia em Portugal, adaptada aos novos tempos que o País vive.
De acordo com esse plano, a rede irá servir para o transporte de mercadorias, mas também de passageiros, em alta velocidade, nos trajectos Lisboa- Porto e Lisboa- Madrid. Grande parte da rede será nova, mas serão também usados troços da rede existente, adaptados para bibitola. Será constituída por dois eixos horizontais, o corredor Lisboa- Caia, com continuação para Madrid e ligações para os corredoresValhadolid- Irun ou Saragoza- Barcelona; e o corredor Pampilhosa- Vilar Formoso, com continuação pelo corredor Valhadolid; e um eixo vertical, o corredor Porto- Lisboa- Sines, com ligações também aos portos de Leixões, Aveiro e Setúbal.
A linha Lisboa- Caia será de via dupla, nova entre Poceirão e Caia, enquanto no troço Lisboa- Poceirão será usada a linha existente, convertida para bibitola e com passagem pela Ponte 25 de Abril, o que dispensa a construção de uma nova travessia do Tejo. No troço Poceirão- Évora, a linha será de bitola europeia, enquanto no troço Évora- Caia será bibitola, para permitir também o tráfego de mercadorias para Espanha através da rede convencional.
A linha Lisboa- Porto será nova, de via dupla e em bitola europeia. No troço entre Lisboa e Vila Nova da Rainha será usado o actual canal da Linha do Norte, ocupando duas das quatro vias aí existentes. Entre Alhandra e Vila Franca de Xira ( onde actualmente só há duas vias) será construído ao lado um túnel com cinco quilómetros, embora seja menos de metade da extensão dos túneis previstos pela ex- RAVE para o mesmo troço.
A linha Pampilhosa- Vilar Formoso será a actual linha da Beira Alta, que passará para bibitola, permitindo a circulação de comboios nas duas bitolas. Como será essencialmente para o transporte de mercadorias, o actual traçado serve muito bem e o tráfego nunca justificará mais que uma via.
Quanto à linha Poceirão- Sines, será de via única e em bitola europeia. No troço Grândola- Sines será nova, enquanto no troço Poceirão- Grandola será instalada uma via de bitola europeia ao lado da linha existente. As ligações aos portos de Leixões, Aveiro e Setúbal serão realizadas pelos actuais ramais, em via única, os quais serão convertidos para bibitola. Eventualmente, será ainda construída uma linha de via única de bitola europeia, ligando Poceirão e Vila Nova da Rainha, de modo que o tráfego de mercadorias norte- sul não tenha que atravessar Lisboa.
Anova rede de bitola europeia articula com a rede de bitola ibérica existente nas zonas das estações, as quais serão comuns às duas redes, bem como em plataformas logísticas para o transbordo de mercadorias, localizadas empontos estratégicos. Aestação de passageiros emLisboa será em Entrecampos, um local central.
O custo total desta rede será de apenas cerca de cinco mil milhões de euros. Tendo em conta as possibilidades de cofinanciamento através dos fundos da União Europeia para as redes transeuropeias de transportes, trata- se de um projecto perfeitamente realizável pelo País durante os próximos dez anos.
O sucesso do projecto dependerá contudo de haver na Espanha linhas que lhe dêem continuidade até França. Além da conclusão da nova linha em bitola europeia Madrid- Badajoz, que se prevê para 2016, será necessário converter para bibitola os troços de bitola ibérica Vilar Formoso- Valhadolid e Palência- Vitória, bem como o troço Madrid- Valhadolid. Todavia, não deverá ser um problema, já que serão precisos apenas 1600 milhões de euros, cerca de 3% dos 53 mil milhões que Espanha planeia gastar na ferrovia durante os próximos dez anos.
O grande problema para a realização deste projecto são os opositores que tem em Portugal, em particular o fortíssimo “lóbi” do Novo Aeroporto de Lisboa, pois sabem que se houver uma rede ferroviária de bitola europeia, provavelmente, o Novo Aeroporto já não irá ser construído, e lá se vão as centenas de milhões de euros investidos na compra de terrenos naquela zona.
Esperemos que o egoísmo e os interesses de uns quantos não se sobreponham ao interesse público.
S. Pompeu Santos in Diário de Notícias de 3 de Janeiro de 2013


