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Terça, 12 Nov 2019

Ideais (Opinião)

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"Na Turquia o governo quis regulamentar o ideal de um Estado que fosse simultaneamente religioso e laico e assim armadilhou os ideais de milhares de pessoas que vieram para a rua expressá-los, a demonstrar que o ideal recalcado pode em qualquer momento manifestar-se." - Texto a acompanhar foto. 
Surge como facto social a convicção de que os ideais já não têm lugar. Em suma: querem fazer-nos crer que os ideais caíram como caiu o Muro de Berlim.

Poderíamos evocar Platão, a Revolução Francesa, Hegel ou o Manifesto do Partido Comunista de 1890, ou o messianismo de Walter Benjamin. Podemos também evocar, como se evocássemos uma nuvem, o cinema de Visconti, de Godard ou de Glauber Rocha, a poesia de Holderlin, de Álvaro de Campos, de Antjie Krog, de Mahmoud Darwich ou Tonino Guerra ou todas as vanguardas artísticas do século XX para perguntar: o que é feito do ideal, dos ideais? Todos estes autores afirmam que a realidade, tal qual ela é no presente, em cada presente, pode e deve ser superada. Subjacente está uma ideia de futuro impulsionada por um ideal de transformação, de aperfeiçoamento, uma visão laica de partilhar com os deuses o melhor deles e que, partindo de uma proposição subjectiva, revela porém a vocação de ser um bem universal.

Ora, uma constante poderosa na actualidade parece ser a inexistência de um ideal de vida, de um ideal social e de comunidade. Para ser mais preciso, surge como facto social - mas na realidade ela pertence à esfera política - a convicção de que os ideais já não fazem sentido nem têm lugar, e que não há uma linguagem que os expresse que não seja uma linguagem desacreditada. Em suma: querem fazer-nos crer que os ideais caíram como caiu o muro de Berlim. Na verdade, o consumo ocupou o lugar deixado vago tanto pelas ideologias redentoras como pelos ideais carregados de subjectividade e de humanismo e de promessa de um futuro melhor.

No Brasil, o Partido dos Trabalhadores confronta-se agora com a revolta das populações depois de, durante década e meia, ter privilegiado como proposta ideológica o acesso ao consumo da maioria dessas populações. Permitiu que se confundisse qualidade de vida com consumismo e desvalorizou a sustentabilidade ecológica, estética, laboral - estas, sim, ideais na medida em que criam possibilidades para mudar o mundo.

Também o ANC (Congresso Nacional Africano), depois de se concentrar no fim do apartheid, transformou o estado sul-africano num clone de si mesmo, desconsiderando o direito ao trabalho, o direito à imigração como ideais de vida. E na Europa os governantes permitiram que o dinheiro ocupasse quase por inteiro o espaço e os territórios das ideias e das utopias. Na Turquia o governo quis regulamentar o ideal de um Estado que fosse simultaneamente religioso e laico e assim armadilhou os ideais de milhares de pessoas que vieram para a rua expressá-los em forma de cacofonia, é certo, mas a demonstrar que o ideal recalcado pode em qualquer momento manifestar-se.

Neste contexto, as classes sociais e as suas tipologias tradicionais desapareceram; onde havia a configuração do operário, do burguês, do intelectual, do proletário e as definições de limites e assunções de conflitos passou a haver apenas o consumidor. E na categoria de Consumidor Global cabem todos os que têm como forma de vida a acumulação de bens através do consumo. Quem não é consumidor é remetido para a classe genericamente designada dos pobres: aqueles que nada têm e nada podem reclamar. Não é por acaso que entre pobre e o que não tem abrigo - aquele que, portanto, não tem direito a ocupar um lugar - existe uma coincidência vocabular.

No plano da política, estes consumidores globais constituem a massa homogénea e a grande destinatária dos discursos dos políticos e estes deixaram de se apoiar em ideais e na reclamação de um futuro melhor para serem apenas anunciadores de marcas. Tentam, como faz qualquer outro apelo ao consumo, que a sedução da marca atinja o maior número de votantes. Estes são cada vez mais semelhantes nos gostos e consumos diários.

David Willets, um parlamentar inglês com responsabilidades na área da educação, descrevia o debate político como uma discussão entre marcas de cafés ou de whisky: "quem conseguiu a melhor mistura entre uma economia competitiva e uma justiça social e comunitária?"

Para alcançar esta exclusão dos ideais do campo da política e da vida utilizaram-se várias estratégias, todas elas com o propósito de colonizar os espíritos: a exaltação do pragmatismo contra os ideais, o consenso contra o dissenso, a evidência contra o argumento. Quando os políticos se encontram no meio de situações de conflito social e perante as reivindicações dos trabalhadores recorrem a argumentos que consistem, no fundo, em atirar o pragmatismo contra a ideologia, contudo o que verdadeiramente pretendem impor é a exclusão do desejo, das pulsões de vida vitais, da revêrie individual ou comunitária. E fazem-no porque têm medo dessa potência da vida e, consequentemente, de perderem a ilusão pessoal do poder. Ora, isto nada tem de pragmatismo, sendo o pragmatismo uma filosofia de resolução de conflitos cujo objectivo é o bem comum e a superação do real. Este tipo de apelo ao pragmatismo é, pelo contrário, uma evidência de pequenez e quando vem associada ao discurso de que o mercado no seu pragmatismo tudo regula esconde que o mercado é dirigido e controlado por corporações com interesses de lucro através do consumo.

Na verdade, o chamado consenso político é uma das figuras mais perversas que a democracia pode gerar, e uma das politicamente mais pobres. Assenta em quê, o consenso político? Na combinação do mínimo denominador comum entre políticos semelhantes que têm como objectivo a manutenção e partilha do poder. Não implica uma negociação cultural porque esta, a haver, teria de ser feita com os cidadãos e através de mecanismos como são os debates, os referendos, as eleições - mecanismos que permitem ouvir o que os cidadãos têm a dizer. O consenso é tão só a redução dos ideais a uma fusão de interesses partidários. Como a cozinha de fusão ou a música de fusão, o consenso é mera aparência sem distinção de sabores. Já o filósofo pré-socrático Heraclito afirmava ser a guerra a mãe de todas as coisas como o dissenso é a possibilidade do surgimento dos ideais e do produtivo conflito que o mesmo gera.

Fernando Gil dedicou todo um tratado (Tratado da Evidência) a mostrar que nada é menos evidente que a evidência. Ao contrário da deturpação a que tem sido sujeita pelos políticos populistas que mais a usam - geralmente fazendo-se acompanhar de construções a posteriori dos discursos (gráficos, estatísticas, mapas) -, a evidência requer uma prova.

Ela não é a aniquilação dos ideais, pelo contrário: a evidência decorre da experiência sensorial vivida no seu mais profundo arcaísmo e constrói-se pela língua, não à superfície mas oriunda do trabalho epistemológico dos saberes científicos que não são nada lineares, nada óbvios, uma escadaria tantas vezes necessária para atingir os ideais.

Por António Pinto Ribeiro in Público de 5 de Julho de 2013