O economismo tem sido deliberadamente imposto como programa político, como se não estivesse subordinado a uma ideologia, e tem-no feito muito com a cumplicidade dos media.
O economismo (economism) é uma forma de etnocentrismo. A expressão é da autoria do sociólogo americano Craig Calhoun, principal responsável pela divulgação dos trabalhos de Pierre Bourdieu nos EUA. Nunca uma expressão pareceu tão oportuna na caricatura e na crítica que faz da hegemonia da Economia e da sua omnipresença na vida mediática dos cidadãos.
O economismo — que é uma forma deturpada da Economia, embora usada por economistas no poder — assenta a sua omnipresença em duas estratégias aparentemente, e só aparentemente, contraditórias. Por um lado, reduz a complexidade e a história da Economia a uma vulgata populista, recorrendo a semelhanças com as contabilidades domésticas ou familiares para explicar a Economia do Estado — que é, naturalmente, muito mais complexa até porque, ao contrário das pessoas ou das famílias, os Estados são por princípio eternos. Este é o discurso kitsch dos governantes sobre a Economia, discurso esse que esconde as diferenças de rendimentos, o custo do trabalho e a economia baseada na especulação financeira. Por outro lado, os mesmos governantes, ou os mesmos economistas que utilizam esta estratégia discursiva demagógica, reclamam para a Economia uma aura e uma singularidade que a tornariam não só num saber de dimensões esotéricas a poucos acessível — sendo esses poucos geralmente figuras de aparência austera e discursos tautológicos que desejam a todo o custo ser tomadas como uma espécie de Sibilas dos tempos modernos, como um dispositivo omnipresente na vida total dos cidadãos — como uma espécie de religião de que ninguém se poderá permitir ser descrente. E é aqui que o economismo se afirma em todo o seu etnocentrismo, ao justificar-se como superior a todas as outras áreas do saber, ao recusar a
inclusão de modos diferentes de olhar a realidade (inclusive outras perspectivas menos ortodoxas da própria Economia) e ao avaliar todos os outros mundos e perspectivas culturais a partir de um olhar centrado sobre si, excluindo assim ideias e debates, bem como grupos, pessoas e regiões que não sejam reconhecidos no interior desta nação economista.
Não esqueçamos que a Economia é uma ciência social e humana e, enquanto tal, faz parte dos ramos do saber que exigem método e uma objectividade de análise assente numa epistemologia adequada, na qual a ligação com a história do seu saber tem um lugar determinante. Enquanto ciência, admite o erro e a falha, mas exige a honestidade intelectual do investigador para reconhecer o erro e não o repetir ou escamotear.
Ora, um dos contributos que o discurso cultural pode dar na actualidade é desconstruir esta mitologia da infalibilidade da Economia, começando por afirmar que não existe uma Economia, mas várias teses e múltiplas teorias económicas, e que a sua escolha é já uma escolha no interior do cultural — o desenvolvimento e mesmo o crescimento de um país pode não se medir exclusivamente pelo PIB mas por outros índices, como o índice da felicidade dos cidadãos, o da qualidade da habitação (em vez da propriedade), o da qualidade ambiental, etc. O economismo tem sido deliberadamente imposto com contornos de programa político como se não estivesse subordinado a uma ideologia quando, na verdade, é bem forte a ideologia neoliberal que lhe subjaz; e tem-no feito muito com a cumplicidade dos media (são quase sempre os comentadores da mesma linha do economismo que estão presentes) porque para os media, quanto maiores forem as más notícias — neste caso: a crise —, maiores são as hipóteses de grandes audiências (a guerra é notícia, a paz não é notícia).
A outra variável do economismo enquanto discurso kitsch — esta profundamente ideológica — é aquela que joga com comparações plausíveis mas falsas. O primeiro exemplo foi-nos dado há pouco tempo pelo senhor primeiro- ministro quando perguntava se os cidadãos não se importariam de ter o Estado como uma empresa falida. Ora, o Estado não é uma empresa. O Estado é a super-estrutura funcional de um país, de uma pátria que se define por fronteiras físicas mas também simbólicas, aliás fundamentais para a sua existência, administrada segundo princípios morais e do bem comum e que não está sujeita ao princípio do lucro. Não há, neste dispositivo discursivo do primeiro-ministro, qualquer espaço para a noção de bem público ou de administração pública — os dois representantes do que há de mais salutar e humanista nos Estados modernos. O economismo — de que esta atitude é bem representativa — confunde também Economia e mercado financeiro e não admite o debate entre os cidadãos sobre o tipo de Economia que estes desejam. E, para citar novamente Craig Calhoun: “Precisamos de uma conversa pública sobre o que queremos e o que podemos razoavelmente esperar da economia. Se vai haver um novo regime regulatório, ele deve guiar- se por objectivos que foram crítica e publicamente discutidos e que vão para além de evitar o desastre e apoiar o crescimento. Os economistas reconhecem outras referências: desemprego, inflação, produtividade, equílibrio comercial, défice fiscal, e o índice Gini da desigualdade. Podemos estabelecer objectivos de performance muito mais explícitos para a economia.”
Entre nós, o economismo tem atitudes particularmente perversas: a primeira é aquela que, instigada pelos governantes e replicada à exaustão pelos media, culpabiliza (neste caso) os portugueses pelos défices e pelas dívidas, acenando com os excessos cometidos no passado — uma penalização pela luxúria do passado. Há que desconstruir esta perversidade: a grande maioria dos portugueses contribuiu com os seus impostos conforme lhe foi imposto e não tinha conhecimento, porque o mesmo lhe era sonegado, da situação financeira e dos excessos cometidos pelas instâncias do poder e das decisões de que não fez parte apenas o partido que esteve nos governos mas todos os que, de alguma maneira, tiveram cargos de decisão e acesso à informação financeira e económica do país e que nada fizeram para impedir a crise. Não podia, pois, a generalidade dos portugueses tomar uma posição sobre a matéria, uma vez que a desconhecia.
Não foram a maioria dos actuais governantes nascidos e cuidados nos hospitais públicos, educados
nas escolas e universidades públicas, não lhes foi possível empregarem-se na administração pública? Imagino o primeiro-ministro e o ministro-adjunto a entreterem-se com (...) o Passeio dos Alegres, do Júlio Isidro, nos Verões das suas adolescências. Porquê agora esta obsessão (...) de privatizar parte da RTP?
A outra perversidade está associada a uma propositada amnésia da História, das Histórias colectivas e das histórias particulares. Tal propósito resulta na ostracização de todo o universo da administração pública e dos serviços públicos que são diabolizados por este discurso — o que, para além de ser política e socialmente injusto, revela, da parte dos actuais governantes, uma enorme ingratidão. Não foram a maioria deles nascidos e cuidados nos hospitais públicos, educados nas escolas e universidades públicas, não lhes foi possível empregarem-se na administração pública? Imagino o primeiro- ministro e o ministro-adjunto a entreterem-se com a sua própria formação musical assistindo a programas televisivos como o Passeio dos Alegres, do Júlio Isidro, nos Verões das suas adolescências. Porquê agora esta obsessão, sem uma razão, para já, convincente, sem um argumento sólido, de privatizar parte da RTP? Contrariamente ao economismo e à sua arrogância, uma perspectiva cultural de abordagem à actualidade não abdica de insistir na necessidade da justiça e da existência de homens justos que, seguindo a ética aristotélica da justiça e o bem maior dos imperativos éticos kantianos, reclamam que a finalidade da acção éohomemeoseubememsi,e não o privilégio de alguns, do qual se desculpam por via do assistencialismo, a forma mais discriminatória de distinguir os incluídos dos excluídos. Para dignificar a Economia enquanto ciência social e humana, uma última citação de Craig Calhoun: “Eu gostaria de viver (e de trabalhar e de investir) numa economia que reduz a pobreza e providencia cuidados de saúde, educação, boa habitação e boa comida para a maioria dos cidadãos. Gostaria de uma economia que reconhece a dignidade e o valor do trabalho — pagando bons salários consoante o esforço e o investimento na aquisição de qualificação. Gostaria de uma economia na qual correr um risco prudente é geralmente compensado — sim, alguns capitalistas são melhores que outros — e a pura especulação não o é. Gostaria de uma inovação tecnológica contínua, mas também de maior cuidado com o ambiente. Mas a questão não é aquilo de que eu gostaria. A questão é que os cidadãos em geral deveriam perguntar que tipos de performance económica querem e pedir ao Governo que dirigisse os investimentos e a regulação nesse sentido, e não apenas no sentido do crescimento.”
Esta é a perspectiva da Economia como ciência social e humana que conjuga a ideia de sustentabilidade com sensibilidade social e toma cuidado com o futuro. E é desta economia que necessitamos e merecemos como contribuintes, como agentes da história e como pessoas de bem.
Por António Pinto Ribeiro in Ípslon de 13/04/2012


