Construção da barragem implica 6400 camiões em vez de 200 comboios. Emissão de CO2 é quatro vezes superior
A barragem do Baixo Sabor, que está em pleno pico de construção, situa-se a escassos 20 quilómetros do Pocinho, a estação terminal da Linha do Douro, onde a CP possui um terminal de mercadorias para cimento. Mas nem um quilo das 160 mil toneladas daquele produto com que a Cimpor abastece o estaleiro de obras desde a sua fábrica em Souselas é transportado em comboio.
No entanto, as próprias instalações fabris possuem um ramal ferroviário ligado à Linha do Norte. E o transporte por caminho-de-ferro é supostamente mais barato e, indubitavelmente, mais amigo do ambiente. É o próprio site da CP Carga que contém um simulador que permite chegar a estes números: 160 mil toneladas de cimento equivalem a 200 comboios de mercadorias ou a 6400 camiões.
A mesma ferramenta permite calcular as emissões de CO2 entre os dois modos de transporte. Tendo em conta a distância entre Souselas (Coimbra) e Pocinho (Vila Nova de Foz Côa) e as quantidades transportadas, o modo ferroviário produziria 351 toneladas de dióxido de carbono e o modo rodoviário 1697 toneladas. Ao custo de 7,42 euros por tonelada de CO2 (preço de referencia no mercado das emissões de carbono), a factura ambiental da opção rodoviária é de 12.592 euros.
Porquê, então, esta opção? Questionada pela PÚBLICO, a CP Carga diz que "não detém relações comerciais directas com os consórcios a quem são adjudicadas as obras de construção de barragens" e que essas relações são estabelecidas entre os fornecedores de materiais e os próprios consórcios. "Até ao momento", explica a CP Carga por correio electrónico, "desconhecemos quais as entidades encarregadas de fornecer o cimento e areia para a barragem em questão".
O consórcio em questão, apurou o PÚBLICO, é formado pela Bento Pedroso e Construções Lena, que acordou com a Cimpor o transporte das 160 mil toneladas de cimento mais 110 mil toneladas de cinzas, necessárias para, no próprio estaleiro, produzir o betão para a barragem.
Mafalda Correia, da Cimpor, explica que "na presente conjuntura, em que os contratos de fornecimento são avaliados aos mais ínfimo pormenor, a solução rodoviária proposta é, sem dúvida, a mais eficiente e menos onerosa" porque o consórcio dispõe de silos próprios na obra, pelo que não se justificaria construir silos adicionais no Pocinho e se multiplicasse as operações de transbordo com a necessidade de recorrer sempre a camiões-cisterna.
Além disso, diz a mesma fonte, "a instalação de um entreposto no Pocinho representaria para a Cimpor um encargo em material e maquinaria sem qualquer perspectiva de amortização, dada a ausência de obras previstas para a região num futuro próximo". Deste modo, conclui, "todo o cimento destinado à barragem está a ser transportado em camião-cisterna". São 12.800 viagens de ida e volta em camião ao longo de 400 quilómetros (a distância entre Souselas e Torre de Moncorvo é de 200 quilómetros).
A construção da barragem decorre entre 2009 e 2014, mas o pico da obra situa-se entre Janeiro de 2011 e Dezembro de 2012. Entre os materiais transportados estão também 110 mil toneladas de cinzas, matéria-prima usada na produção de betão. Segundo a Cimpor, o grupo detém uma empresa que fornece esse material e que possui contratos com diferentes centrais térmicas, podendo a obra "ser abastecida a partir de vários locais, entre os quais se encontram Sines e Compostilla [Astúrias]". Também neste caso, as cinzas são transportadas em camião e depositadas nos silos que o empreiteiro tem na obra.
A Cimpor não precisou quais as quantidades de cinzas que provêm de Sines, que fica a 530 quilómetros da barragem e está também ligada à rede ferroviária nacional. Um comboio transporta a mesma quantidade de cinzas equivalente a 32 camiões e a viagem de Sines ao Porto pode ser inteiramente feita com tracção eléctrica, só sendo necessário recorrer a locomotivas diesel daí até ao Pocinho.
In Público, por Carlos Cipriano.


