Luís Pardal renuncia à presidência da Refer, evocando razões pessoais, três meses depois de ter terminado o seu mandato
Após o chumbo do Tribunal de Contas ao contrato assinado pelo Governo anterior para a construção do troço Poceirão-Caia em alta velocidade, a Refer elaborou um recurso contestando a decisão, mas o ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, não só não o quis entregar ao TC como anunciou que o projecto estava definitivamente abandonado.
Poucos dias depois, Passos Coelho anunciava a construção de uma nova linha entre Sines e Badajoz em bitola europeia, numa opção estratégica que representava o contrário daquilo que a administração da Refer tinha vindo a defender durante os sete anos em que Luís Pardal presidia aos destinos da empresa.
A própria Rave, empresa constituída para liderar o projecto do TGV, tinha a mesma administração da Refer, que se manteve praticamente inalterada desde que foi nomeada em 2005 por Mário Lino, durante o primeiro consulado de José Sócrates.
Com um programa para a ferrovia completamente distinto daquilo que estava a ser implementado pelo Governo PS, o novo executivo ouviu poucas vezes a Refer nas suas decisões (e sobretudo na ausência de decisões), mas não se apressou a mudar a sua administração, em quem não tem confiança política.
O mandato dos administradores terminou em Janeiro e, nessa altura, Luís Pardal comunicou à tutela que pretendia sair. Com as contas de 2011 aprovadas em Março, o presidente esperou pelo último dia de Abril para entregar ao secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro, a carta de renúncia, tendo comunicado a sua decisão aos trabalhadores no mesmo dia, através do portal da empresa.
Averso à exposição pública, evitando entrevistas e jornalistas, Luís Pardal é conhecido por ter "mau feitio", mas também pela sua seriedade e teimosia. Resistiu sempre às pressões de Manuel Godinho, ao ponto de ter recebido pressões da tutela para aceitar reunir-se com o empresário de Ovar, mas não conseguiu evitar a teia de cumplicidades que já existia entre alguns dos seus quadros e as empresas daquele industrial.
A sua saída da Refer é pacífica e não houve nenhuma "gota de água" a provocar esta decisão. Luís Pardal, que antes era administrador da Ferbritas (uma consultora do grupo Refer), deverá pedir a reforma, mas é, para já, obrigado a manter-se em funções até ao último dia de Maio.
O Governo dispõe deste tempo para nomear uma nova administração, podendo, no entanto, reconduzir todos ou alguns dos actuais administradores. Destes, Castanho Ribeiro é quadro da CP, Carlos Fernandes, que teve maior protagonismo no processo da alta velocidade, provém do Instituto Superior Técnico, do qual se desvinculou entretanto, e Romeu Reis é funcionário público.
Do Conselho de Administração inicial da Refer fazia parte também Vicente Pereira, que transitou depois para a administração da CP.
Por Carlos Cipriano in Público de 2/05/2012


