A crise, o desemprego e os aumentos das tarifas provocaram queda de 8,5% na procura no primeiro trimestre. Apesar da subida nas receitas, os resultados operacionais continuam negativos
Nenhuma das seis empresas públicas de transportes conseguiu escapar ao recuo da procura no primeiro trimestre deste ano. Entre Janeiro e Março, as transportadoras do Estado perderam 16 milhões de passageiros, a um ritmo de 175 mil por dia. Ainda assim, conseguiram aumentar as receitas em 8,8% face ao mesmo período de 2011, à custa das subidas de preços efectuadas desde então. Esta melhoria não foi, no entanto, suficiente para tirar os resultados operacionais de terreno negativo, apesar de essa ser uma das exigências da troika.
De acordo com dados cedidos ao PÚBLICO pela Carris, CP, Metro de Lisboa, STCP, Transtejo e Metro do Porto, a procura global caiu 8,5% nos primeiros três meses de 2012. Neste período, as seis empresas movimentaram um total de 170 milhões de passageiros, em comparação com os 186 milhões transportados até Março do ano passado. A diferença é de 16 milhões, o que significa que perderam 175 mil utilizadores por dia desde o início deste ano.
A mais penalizada foi a Carris, que registou um decréscimo de 10% na procura, o que representou o desaparecimento de praticamente 5,9 milhões de passageiros. A Metro de Lisboa também teve um desempenho idêntico, tendo assistido a um quebra de 9,6% e a uma perda de 4,4 milhões de utilizadores no primeiro trimestre. Segue-se a Transtejo, que teve menos 620 mil clientes, fruto de uma retracção de 9% no tráfego. A CP, a STCP e a Metro do Porto perderam, no conjunto, 4,9 milhões de passageiros. Esta última foi a que mais resistência mostrou, tendo recuado apenas 0,78% (ou seja, 100 mil utilizadores).
Os aumentos tarifários efectuados no Verão do ano passado e, mais recentemente, em Fevereiro têm sido apontados como a principal causa para quebras na procura por transportes públicos. Mas esta não será a única justificação para a fuga dos passageiros. Para José Manuel Viegas, professor do Instituto Superior Técnico, o aumento da taxa de desemprego não pode ser dissociada desta tendência. "O facto de as pessoas estarem sem trabalho reduz imediatamente a mobilidade e a necessidade de utilizar estes serviços", afirmou.
Além disso, e apesar de sublinhar que seria necessário ter acesso a informação mais detalhada sobre a procura (movimentos nas horas de ponta ou evolução dos passes sociais, por exemplo) o especialista em transportes considera que esta retracção também deverá estar relacionada com "uma menor propensão para actividades de lazer, face à diminuição dos rendimentos". Os passageiros que desapareceram "não passaram a andar de carro, porque o combustível também aumentou. Simplesmente deixaram de se movimentar e passaram a pensar duas vezes antes de entrar num autocarro ou num comboio", acrescentou.
O certo é que a subida dos preços em Fevereiro teve um impacto directo nas receitas das empresas de transportes do Estado. No primeiro trimestre, a facturação subiu 8,8%, para mais de 99 milhões de euros (excluindo a Metro de Lisboa, que não divulgou estes dados). A Metro do Porto foi a responsável pelo maior aumento, tendo registado um acréscimo de 15% nas vendas, que não poderá ser dissociado do facto de também ter sido a transportadora que menos passageiros perdeu entre Janeiro e Março.
Apesar da evolução positiva no lado das receitas, os resultados operacionais destas empresas continuam em terreno negativo, embora o Governo se tenha comprometido, na sequência do pedido de ajuda externa, a reequilibrar as suas contas até ao final deste ano. Nos primeiros três meses de 2012, o défice operacional melhorou significativamente, tendo diminuído 39%, mas continua a rondar os 26 milhões de euros, sem contabilizar a Metro de Lisboa.
Os resultados líquidos, que a maioria destas transportadoras preferiu não divulgar, deverão ser ainda mais negativos, já que para a sua contabilização entram outras rubricas além dos custos de exploração, como é o caso dos gastos financeiros. De acordo com a última actualização do memorando de entendimento assinado com a troika, o executivo liderado por Passos Coelho tem que entregar até ao final de Junho um relatório sobre as medidas que está a tomar para garantir o reequilíbrio operacional destas empresas.
Reduzir despesas
Os dados cedidos ao PÚBLICO mostram que continua a ser feito um esforço para reduzir despesas, na sequência das medidas de contenção impostas ao Sector Empresarial do Estado desde 2011. Entre Janeiro e Março, os gastos operacionais das cinco transportadoras públicas que divulgaram este indicador desceram 2,7%, passando de 163 para 158 milhões de euros. Houve, porém, dois casos em que os custos subiram, como aconteceu com a Transtejo (um aumento de 7%) e com a CP (0,7%).
O Governo também tem vindo a fazer pressão para que estas empresas não contraíam mais dívida, tendo em conta o avolumar dos passivos nos últimos anos, muito por causa do investimento em infra-estruturas públicas. No entanto, o endividamento global das cinco empresas cresceu 5,5%, alcançando mais de 7,3 mil milhões de euros. Outra das imposições é o emagrecimento dos quadros de pessoal, que no primeiro trimestre perderam praticamente 700 trabalhadores, face a Março de 2011. O objectivo, de acordo com os planos do executivo, é que estas empresas atinjam cerca de mil rescisões de contratos em 2012.
Por Raquel Almeida Correia in Jornal Público.


